O primeiro diálogo a ser lido foi o
Eutífron, diálogo muito pouco conhecido, mas que aparece como o primeiro diálogo da
primeira tetralogia de Trasilo. Trasilo, esse ilustre desconhecido para
nós, é um nome importante na tradição neoplatônica da Academia, um dos fixadores de uma determinada
ordem
com que os diálogos provavelmente foram lidos, ou ensinados, em alguns momentos e
lugares, entre o final da assim chamada Antiguidade e o início da era
cristã.
Não se trata nem da única, nem talvez da principal
classificação
dos diálogos. Existem, por exemplo, as trilogias de Aristófanes de
Bizâncio, que também organiza os diálogos como séries de lições
didaticamente pensadas. Este, evidentemente, não era o famoso
Aristófanes das Comédias e personagem do
Banquete,
de Platão, porque Aristófanes de Atenas era contemporâneo, além de
inimigo declarado de Sócrates, sendo, portanto, um pouco anterior ao
próprio Platão e incompatível com um "sistema socrático" que é o que os
Diálogos de Platão constituem para a posteridade.
Como sabemos, além de ridicularizar Sócrates, na comédia
As nuvens,
Aristófanes, o Cômico, assina com outros atenienses a petição que
levaria à condenação de Sócrates perante o Tribunal de Atenas.
Aliás, é esta a circunstância narrativa do diálogo
Eutífron:
Sócrates encontra o vidente ateniense que dá nome ao diálogo em frente
ao Tribunal, porque acabara de ser "intimado", como se diz hoje. O tema
do diálogo gira em torno da definição do que é
justo e do que é
santo,
e da necessidade tipicamente platônica de se pensar um Bem universal,
para além dos bens particulares, os quais a inteligência não seria capaz
de reconhecer (ao menos não filosoficamente), se não buscar conhecer o
Bem em geral. É este, enfim, provavelmente o tema mais recorrente nos
Diálogos, senão
o tema central dos
Diálogos, como um conjunto. Com efeito, tanto o
Eutífron como a
Apologia, são textos claramente
voltados para não iniciados, sendo ambos bastante curtos e de fácil compreensão, o que, aliás, caracteriza quase todos os diálogos, principalmente os "primeiros", isto é, os propedêuticos, as lições iniciáticas, que são por isso mesmo uma primeira
Vita Socratis, isto é, a vida do herói daquela longa narrativa didática que são os
Diálogos, que Marcel Schwob, nas suas
Vidas imaginárias, inteligentemente irreverente chamaria de "interrogatórios sobre a Moral".
Tanto a classificação de Aristófanes de Bizâncio quanto a
de Trasilo devem ter tido suas tradições particulares, cujos
desdobramentos mais específicos não nos interessam aqui. Nos dois casos,
são classificações que envolvem uma determinada
ordem
para ler os diálogos, como ficou dito. Existem ainda outras formas
antigas de classificar os diálogos que não por uma ordem de leitura do
mais simples ao mais complexo. Algumas classificações são conformes à
natureza do assunto (diálogos éticos e teoréticos, por exemplo), outras
conforme a forma discursiva (diegeséticos e miméticos), e assim por
diante, dependendo das épocas e dos comentadores em questão.
Aqui foi escolhida a ordem de Trasilo, apenas por ser a porta de entrada
que, um dia, eu escolhi para reler os diálogos com mais sistema. Também
porque a ordem assim disposta me pareceu eficaz para chegar (bem mais
tarde) à leitura de textos extensos e complexos como os livros da
República e das
Leis.
Nesta sequência de tetralogias, os diálogos demonstram ser uma espécie
de "sistema de ensino" que parece conduzir os não iniciados à iniciação e
penetração neste sistema místico-jurídico tão influente sobre toda a
era cristã, de que fazemos parte.
Com efeito, a filosofia de Platão foi ensinada por diversas formas,
durante quase um milênio (aproximademente entre os séculos V a.C e V
d.C), tendo diversos intérpretes ligados quase sempre à instituição
escolar ateniense fundada por Platão, mas também fora dela, entre os
assim chamados Padres da Igreja, por exemplo, e entre incontáveis outros
fora da ortodoxia católica.
A famosa Academia, de onde, entre tantos outros, saiu Aristóteles para
fundar o seu Liceu, recebeu, durante os séculos de supremacia latina no
Mediterrâneo, cidadãos romanos ilustres para estudar grego e filosofia
grega. Este refinamento básico para a "casta" de
optimates
de Roma visava à educação dos filhos das famílias principais do Império
em plena expansão belicosa, os quais filhos constituiriam as classes
políticas que viriam a governar a Cidade, seus exércitos, suas colônias,
como membros de uma oligarquia senatorial republicana, antes da
centralização operada por Júlio César e Otávio Augusto.
Um caso destes é o nobre e distinto Brutus, o tão conhecido assassino
republicano de Júlio César, além de amigo e correligionário de Cícero.
Brutus dá título a um dos livros sobre Retórica deste último, e é também
seu interlocutor em outros textos ciceronianos igualmente importantes. O
próprio Cícero, que manteve professores gregos em sua casa e também
pertencia à nobreza senatorial romana, menciona a educação ateniense do
amigo Brutus, no livro de mesmo nome, referindo particularmente seu
conhecimento em dialética, por ter passado justamente pela Academia, que
então já tinha cerca de quatro séculos de existência.
É óbvio que não é preciso escrever uma linha sequer para justificar a importância dos
Diálogos,
mas é preciso enfatizar que aqui não se pretende repor acriticamente
mistificações românticas da filosofia grega, nem repetir o elogio da
"grandeza" desse sistema filosófico antigo. Basicamente o que esta breve
e imprecisa exposição pretende é fazer ver que Platão esteve na base da
constituição de
muito poder, na
legitimação de máquinas de guerra estatais que vão do Império Romano às
destrutivas democracias de mercado globalizadas. Estas se apóiam na
falácia da pseudo-etimologia do termo
democracia,
por exemplo, com o fito de legitimar todas as mais brutais violências e
enganos da mundialização do valor monetário, como se viu nas fraudes
anglo-americanas que justificaram invasões desastrosas no Oriente Médio
entre as últimas décadas do século XX e início do XXI.