quinta-feira, 14 de junho de 2012

sexta-feira, 25 de maio de 2012

DIVULGAÇÃO


Projeto de Extensão Continuada
Difusão de Repertórios e Rotinas de Leitura
Coordenador: Prof. Ricardo Martins Valle
Apologia de Sócrates, de Platão
(Sextas-feiras, das 18h20 às 19h10)
A partir de junho, o Grupo de Leitura de Platão abre-se para novos integrantes, interessados em ler coletivamente por alguns meses uma obra no mínimo muito lida na história dos últimos dois mil anos e cujo interesse é, por isso mesmo, multidisciplinar.
Dando continuidade à proposta de leitura coletiva dos Diálogos de Platão, após a leitura do Eutífron, leremos a famosa Defesa de Sócrates, perfazendo assim dois textos escritos para iniciantes na escola filosófica que os Diálogos representavam na Antiguidade grega e romana. Neste sentido, conforme a proposta que originou o Grupo, seguimos a antiga ordem de Trasilo, isto é, uma das disposições com que os diálogos eram ensinados no início da era cristã, organização motivada por princípios propedêuticos, isto é, com o fim de melhor ensinar o conteúdo de seu sistema, que teve muitas consequências para o assim chamado “pensamento ocidental”, sendo constituinte de discurso de autoridade e de instituições de poder que tiveram efetividade por séculos.
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PÚBLICO: Qualquer pessoa. LOCAL: UESB. 2o. andar do Módulo dos Colegiados e Departamentos.
PERIODICIDADE: semanal. DURAÇÃO ESTIMADA: de quatro meses a seis meses.
MAIS INFORMAÇÕES: no blog: Literatura e outras inconformações, www.outrasinconformações.blogspot.com;
CONTATO: por e-mail: rimavalle@yahoo.com.br.
INSCRIÇÕES: comparecer nas duas primeiras reuniões (1 e 9 de junho).
Obs.: Não é necessário iniciação no assunto, nem a aquisição da obra.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A Apologia de Sócrates, no início das noites de sexta



A partir de junho, o Grupo de Leitura de Platão convida novos integrantes para participar da Rotina de Leitura da Apologia de Sócrates. Esta ação do Projeto de Extensão Continuada Difusão de Repertórios e Rotinas de Leitura dirige-se a quaisquer pessoas, interessadas em ler coletivamente uma obra no mínimo muito lida na história dos últimos 2000 anos, pelo menos.
Dando continuidade à proposta de leitura coletiva dos Diálogos de Platão, após a leitura do Eutífron, leremos a famosa Defesa de Sócrates, perfazendo assim dois textos iniciáticos, isto é, escritos para iniciantes na escola filosófica que os Diálogos representavam na Antiguidade grega e romana, a Academia de Atenas, sendo dispensado dar ênfase às consequências que esta (literalmente) escola filosófica teve para a história da assim chamada filosofia ocidental e, decorrentemente, para as instituições ocidentais tais como se tem metamorfoseado nos últimos milênios, com poder cada vez maior de ação sobre os territórios do mundo.
Neste sentido, conforme a proposta que originou o Grupo de Leitura de Platão, seguimos na leitura a antiga ordem de Trasilo, isto é, uma das disposições com que os diálogos eram ensinados no início da era cristã, organização motivada por princípios propedêuticos, isto é, com o fim de melhor introduzir alunos no conteúdo de seu sistema. Esse sistema teve muitas consequências para o assim chamado “pensamento ocidental”, sendo constituinte de discurso de autoridade e de instituições de poder que tiveram efetividade por séculos. E certamente não por acaso, aliás, justamente por não serem quaisquer alunos, simplesmente pensados sobre uma universalidade humana que seria anacrônica para a referida instituição escolar antiga. Seus alunos são futuros varões de Cidades-Estado gregas, são futuros políticos romanos, são patrícios, e por isso mesmo não precisamos universalizar ou atualizar anacronicamente hoje o que supomos ser o "pensamento platônico", mas ao contrário historicizá-lo bem como hitoricizar suas consequências ulteriores e seus usos políticos.
  
O primeiro diálogo a ser lido foi o Eutífron, diálogo muito pouco conhecido, mas que aparece como o primeiro diálogo da primeira tetralogia de Trasilo. Trasilo, esse ilustre desconhecido para nós, é um nome importante na tradição neoplatônica da Academia, um dos fixadores de uma determinada ordem com que os diálogos provavelmente foram lidos, ou ensinados, em alguns momentos e lugares, entre o final da assim chamada Antiguidade e o início da era cristã.

Não se trata nem da única, nem talvez da principal classificação dos diálogos. Existem, por exemplo, as trilogias de Aristófanes de Bizâncio, que também organiza os diálogos como séries de lições didaticamente pensadas. Este, evidentemente, não era o famoso Aristófanes das Comédias e personagem do Banquete, de Platão, porque Aristófanes de Atenas era contemporâneo, além de inimigo declarado de Sócrates, sendo, portanto, um pouco anterior ao próprio Platão e incompatível com um "sistema socrático" que é o que os Diálogos de Platão constituem para a posteridade. Como sabemos, além de ridicularizar Sócrates, na comédia As nuvens, Aristófanes, o Cômico, assina com outros atenienses a petição que levaria à condenação de Sócrates perante o Tribunal de Atenas.

Aliás, é esta a circunstância narrativa do diálogo Eutífron: Sócrates encontra o vidente ateniense que dá nome ao diálogo em frente ao Tribunal, porque acabara de ser "intimado", como se diz hoje. O tema do diálogo gira em torno da definição do que é justo e do que é santo, e da necessidade tipicamente platônica de se pensar um Bem universal, para além dos bens particulares, os quais a inteligência não seria capaz de reconhecer (ao menos não filosoficamente), se não buscar conhecer o Bem em geral. É este, enfim, provavelmente o tema mais recorrente nos Diálogos, senão o tema central dos Diálogos, como um conjunto. Com efeito, tanto o Eutífron como a Apologia, são textos claramente voltados para não iniciados, sendo ambos bastante curtos e de fácil compreensão, o que, aliás, caracteriza quase todos os diálogos, principalmente os "primeiros", isto é, os propedêuticos, as lições iniciáticas, que são por isso mesmo uma primeira Vita Socratis, isto é, a vida do herói daquela longa narrativa didática que são os Diálogos, que  Marcel Schwob, nas suas Vidas imaginárias, inteligentemente irreverente chamaria de "interrogatórios sobre a Moral".
 
Tanto a classificação de Aristófanes de Bizâncio quanto a de Trasilo devem ter tido suas tradições particulares, cujos desdobramentos mais específicos não nos interessam aqui. Nos dois casos, são classificações que envolvem uma determinada ordem para ler os diálogos, como ficou dito. Existem ainda outras formas antigas de classificar os diálogos que não por uma ordem de leitura do mais simples ao mais complexo. Algumas classificações são conformes à natureza do assunto (diálogos éticos e teoréticos, por exemplo), outras conforme a forma discursiva (diegeséticos e miméticos), e assim por diante, dependendo das épocas e dos comentadores em questão.

Aqui foi escolhida a ordem de Trasilo, apenas por ser a porta de entrada que, um dia, eu escolhi para reler os diálogos com mais sistema. Também porque a ordem assim disposta me pareceu eficaz para chegar (bem mais tarde) à leitura de textos extensos e complexos como os livros da República e das Leis. Nesta sequência de tetralogias, os diálogos demonstram ser uma espécie de "sistema de ensino" que parece conduzir os não iniciados à iniciação e penetração neste sistema místico-jurídico tão influente sobre toda a era cristã, de que fazemos parte.

Com efeito, a filosofia de Platão foi ensinada por diversas formas, durante quase um milênio (aproximademente entre os séculos V a.C e V d.C), tendo diversos intérpretes ligados quase sempre à instituição escolar ateniense fundada por Platão, mas também fora dela, entre os assim chamados Padres da Igreja, por exemplo, e entre incontáveis outros fora da ortodoxia católica.

A famosa Academia, de onde, entre tantos outros, saiu Aristóteles para fundar o seu Liceu, recebeu, durante os séculos de supremacia latina no Mediterrâneo, cidadãos romanos ilustres para estudar grego e filosofia grega. Este refinamento básico para a "casta" de optimates de Roma visava à educação dos filhos das famílias principais do Império em plena expansão belicosa, os quais filhos constituiriam as classes políticas que viriam a governar a Cidade, seus exércitos, suas colônias, como membros de uma oligarquia senatorial republicana, antes da centralização operada por Júlio César e Otávio Augusto.

Um caso destes é o nobre e distinto Brutus, o tão conhecido assassino republicano de Júlio César, além de amigo e correligionário de Cícero. Brutus dá título a um dos livros sobre Retórica deste último, e é também seu interlocutor em outros textos ciceronianos igualmente importantes. O próprio Cícero, que manteve professores gregos em sua casa e também pertencia à nobreza senatorial romana, menciona a educação ateniense do amigo Brutus, no livro de mesmo nome, referindo particularmente seu conhecimento em dialética, por ter passado justamente pela Academia, que então já tinha cerca de quatro séculos de existência.

É óbvio que não é preciso escrever uma linha sequer para justificar a importância dos Diálogos, mas é preciso enfatizar que aqui não se pretende repor acriticamente mistificações românticas da filosofia grega, nem repetir o elogio da "grandeza" desse sistema filosófico antigo. Basicamente o que esta breve e imprecisa exposição pretende é fazer ver que Platão esteve na base da constituição de muito poder, na legitimação de máquinas de guerra estatais que vão do Império Romano às destrutivas democracias de mercado globalizadas. Estas se apóiam na falácia da pseudo-etimologia do termo democracia, por exemplo, com o fito de legitimar todas as mais brutais violências e enganos da mundialização do valor monetário, como se viu nas fraudes anglo-americanas que justificaram invasões desastrosas no Oriente Médio entre as últimas décadas do século XX e início do XXI.